O texto a seguir é extraido do livro Lendas Brasileiras do folclorista brasileiro CAMARA CASCUDO.
Na sua aldeia, à entrada da baía de
Todos os Santos, residia Diogo Álvares. Em certa manhã de maio de 1536, sua
esposa, a celebrada Catarina Paraguassu, contava-lhe
singular sonho por duas vezes tido àquela noite: em extensa praia vira um navio
destroçado,homens brancos rotos, encharcados os trapos
que mal lhes resguardavam a pele, transidos de frio e
inânimes de fome, estando entre eles uma jovem mulher
muito alva, de estranha e fascinadora beleza, tendo
aos braços não menos bela e alva criancinha.
Mandou Caramuru explorar a costa
próxima, desde a entrada da barra até além do rio Vermelho, a ver se nela algum
navio fizera naufrágio, pois enxergara no sonho de Catarina, celeste aviso para
ir em auxílio de cristãos que por aquelas redondezas
houvessem sido vítimas das insídias do mar. Tais pesquisas resultaram
negativas.
Nessa noite, Paraguassu
teve outra vez o mesmo sonho. Ordenou Diogo novas buscas até muito longe
estendidas. Passaram-se dias, e vieram os índios trazer-lhe novas de haver-se
despedaçado uma embarcação de gente branca na costa da ilha de Boipeba, achando-se em terra os seus tripulantes, a curtir privações. Sem
demora, partiu Caramuru em socorro dos náufragos, que eram castelhanos,
trazendo-os com ele.
Entre os náufragos,porém,não estava mulher alguma. E que não viera a
bordo pessoa de outro sexo,asseguraram-lhe.
Entretanto, à noite de sua volta, a linda mulher tornou aparecer a Catarina,agora sozinha –
dizendo-lhe que a mandasse buscar para a sua aldeia e lhe fizesse uma casa.
Era-lhe a voz tão harmoniosa, que Paraguassu
despertou extasiada, rogando insistentemente ao marido que fosse de novo à
ilha, à procura.
Diogo partiu-se pela
segunda vez, e em todas as aldeias vizinhas do lugar do sinistro,deu
rigorosa batida,julgando haverem os tupinambás em custódia a moça que se
mostrava à esposa adormecida. Finalmente, na palhoça de um indígena, encontrou
pequena arca, que dos destroços do navio soçobrado o mar atirara à praia.
Abrindo-a, encontrou uma imagem da Virgem Maria, com o Menino Jesus nos braços.
Ao ver a imagem, Paraguassu exultou de alegria,nela
reconhecendo os traços fieis da moça dos sonhos. Diogo fez elevar com presteza,
perto da sua habitação, uma ermida de taipa, onde colocou o santo vulto. E
porque lhe ignorasse a invocação, deu-lhe a de Nossa Senhora da Graça, pelo que
fizera aos náufragos, promovendo-lhes o salvamento, e à Catarina revelando-lhe
o seu paradeiro. Mais tarde, Caramuru construiu outra igrejinha,mais
bem-cuidada, de pedra e cal,no mesmo sítio de hoje, reedificada em 1770.

Igreja Nossa Senhora da Graça - Salvador - Ba.